As 24 Horas BTT 2005 vistas por dentro
O relato do SD
Participar numa prova de 24h de BTT foi algo que não me passava pela cabeça quando, há 3 anos atrás, decidi voltar a pedalar. Momentos antes da partida para as 24h de BTT de Proença-a-Nova, quando já me tinha conseguido chegar à frente o suficiente para ser um dos primeiros a sair, pensei exactamente no que me motivava a estar ali ao Sol, sob uns escaldantes 42 graus, como alguém a meu lado comentava ao olhar para o relógio. A resposta? Talvez a obtenha ao ler este relato.

A preparação para as 24h envolve alguma logística que deve ser cuidadosamente pensada, nomeadamente quando também se tem de pensar em equipa. Desde a escolha de um circuito para treino com altimetria idêntica à da prova, passando pela preparação do sistema de luzes até à elaboração de um plano de prova capaz de organizar as voltas e o tempo de descanso de cada participante, tudo foi meticulosamente preparado.
A viagem para Proença-a-Nova começou na véspera da prova. Alguns elementos fizeram a viagem mais cedo de forma a poder montar a aldeia dos “Just4Fun”, no espaço relvado que a organização concedeu para as boxes dos participantes. O espaço conseguido veio a revelar-se bastante agradável. Além de beneficiarmos de algumas das sombras do arvoredo existente tínhamos montado ainda 2 toldos que levámos. Havia ainda na proximidade a um chafariz onde alguns se banhavam quase que tomando banho.

O jantar de sexta-feira foi em alegre convívio no "Gostinho da Aurora", um restaurante onde umas entremeadas e umas febras confortaram o estômago. Após o jantar fizemos uma passagem a pé pela zona da meta e estudávamos os últimos metros do circuito que culminavam com uma espécie de pista de obstáculos. Houve quem dissesse: “mas para quê é que é isto?!?” ou “já andam a inventar”. Creio que hoje todos acabaram por achar divertida aquela passagem.

Ainda antes da recolha à tenda, houve que a acabar de montar e organizar melhor o espaço reservado e delimitado por fitas que os primeiros a chegar colocaram. Depois disso e após uma visita aos balneários que se situavam numa escola a largas centenas de metros do acampamento, o merecido e necessário descanso. O excessivo calor que se fazia sentir e o muito barulho que envolvia o espaço dificultaram o descanso que foi de poucas horas. Pela manhã um enorme zumbido fazia-nos pensar ter um enxame de abelhas por cima da tenda. Na verdade elas estavam lá mas no alto, na árvore e sem incomodar os ciclistas.

Levantei-me cedo com o meu companheiro de tenda, o Artur. O objectivo era ir reconhecer o percurso. Convinha saber as partes perigosas bem como as mais rápidas ou difíceis. Alguns elementos já tinham feito esse reconhecimento no dia anterior e tinham-nos feito referência a pontes sem amparo e lances de escadas para descer. Ficámos curiosos e quisemos antever estas dificuldades. Fizemo-nos ao caminho mas assim que entrámos em terra deixámos de saber por onde seguir. Voltámos para trás e apostámos no factor surpresa.

As horas que antecederam a partida foram utilizadas nos últimos preparativos das máquinas assim como no cuidado com a alimentação e hidratação. Houve também quem descontraísse com a leitura de revistas da especialidade e ainda quem se isolasse em momentos de reflexão.

O plano de prova da equipa Just4Fun^2 era então fixado no toldo para que todos, volta após volta, o pudessem actualizar com os tempos realizados. Este mesmo plano ditava que da equipa Just4Fun^2 eu seria o primeiro a sair. Dos restantes elementos, Fernando Ferreira por parte da equipa Just4Fun e Pedro Cravo da equipa Forum-TT faziam as despesas da casa na primeira volta. O briefing foi atentamente escutado por toda a equipa que acabou por assistir ao tiro de partida.

Tentei sair rápido na frente pois tinha a indicação que imediatamente após a entrada na terra havia um single-track onde, alguns metros à frente haveria que atravessar uma pequena ponte com menos de 2 metros de comprimento por 1 metro de largura. Para ajudar, esta passagem não tinha amparo do lado esquerdo, sendo sensato fazê-la com a bicicleta pela mão. O single-track continuava após a ponte por num caminho estreito e a subir com alguma pedra solta, revelando-se a melhor estratégia a de continuar com a bicicleta pela mão por mais alguns metros. A confusão de início de prova que eu temia saiu gorada talvez pelo facto de eu ter sido dos primeiros a fazer esta passagem. O calor apertava, o esforço de uma prova de resistência haveria que ser doseado e o ritmo foi naturalmente diminuindo ao pensar na altimetria da volta. Tentei estar atendo às indicações do percurso bem como tentei decorar o melhor trajecto em cada parte do caminho. Circular atrás de outros ciclistas revelou-se penoso. O terreno muito seco e com muito pó, o suor a escorrer pelo corpo e os olhos a arder devido a esta mistura, foram inimigos difíceis de vencer. A grande subida do percurso foi feita em 2 tempos. Senti necessidade de descansar um pouco e acabei por ser ultrapassado pelo Fernando que me perguntou se estava bem. Venci a subida, cheguei ao topo e desci com ânimo sabendo que até à meta não tinha mais subidas. Alcancei então o Fernando que tinha acabado de furar. Como este dispensou a ajuda que prontamente lhe ofereci, segui até à meta. Um último sigle-track a anteceder um conjunto de lances de escadas foi percorrido e estudado ao detalhe. Os dois últimos lances de escada revelavam-se mais difíceis mas foram bem executados sob o olhar de alguns espectadores que assistiam entusiasmados. A passagem na meta foi rápida de forma a perder o mínimo tempo possível e fui rendido pelo Artur Ribeiro. 54m foi o tempo que necessitei para fazer a volta de abertura dos Just4Fun^2.

Voltaria a pedalar em nova volta cerca de 3 horas depois. Parecia uma eternidade mas passou depressa. Caminhei para o acampamento e conversámos sobre o circuito. Avisámos os estreantes das armadilhas e contámos as nossas dificuldades. Enquanto isso, olhei para a bicicleta e concluí que, apesar do muito pó, esta estaria ainda lubrificada não sendo necessário fazer qualquer tipo de manutenção. 56m após a partida, o Artur completava a sua primeira volta dando a oportunidade ao Hélder Caeiro de se estrear. O calor apertava e o chafariz fazia a vez de chuveiro. Que bem que sabia. Havia que hidratar muito e comer alguma coisa. Descansar era coisa necessária mas difícil de concretizar. 48m no circuito foi o tempo que o Hélder demorou a percorrer a sua primeira volta. Mais infeliz foi a volta inaugural do Francisco Gomes. Um furo obrigou-o a percorrer os 13km do circuito em 1h37m.

Na segunda ronda, eu e o Artur realizámos os tempos de 58m e 57m respectivamente. O Hélder baixava o seu tempo para os 46m enquanto o Francisco baixava para 1h24m. Nesta segunda ronda o Francisco foi já obrigado a levar luzes pois o regulamento da prova indicava a necessidade dos ciclistas se fazerem acompanhar do sistema de iluminação no tempo compreendido entre as 19 e as 7h. Na minha segunda volta tive problemas mecânicos que me obrigaram a parar nas subidas. O desgaste da corrente, aliado ao imenso pó acumulado por toda a transmissão já desgastada e o facto de eu não ter re-lubrificado o sistema após a primeira volta, fazia com que, em esforço, na mudança mais baixa a corrente “bloqueasse” sendo tornando-se impossível pedalar.

Após uma completa limpeza e lubrificação auxiliada pelo amigo Delgado, dava início a terceira ronda cerca das 20h20m. Por esta altura a temperatura diminuíra e embora ainda houvesse luz suficiente para executar uma volta ao circuito sem luzes, fiz-me acompanhar apenas de um frontal. Foi então que fiz a minha volta mais rápida – 52 minutos. Eu sei que não é um tempo exemplar mas foi o meu melhor tempo. Entrei na pista com fé e percorri os primeiros 6-7km a um ritmo alucinante pensando aguentar bem a última subida. Foi um erro que paguei caro despendendo desta forma energia que viria a ser necessária km’s à frente. Perdi tempo exagerado na última subida e tentei recuperar nas descidas finais sem contudo sentir que estava a arriscar em demasia. Serviu-me de lição. Nessa mesma ronda, o Artur fez 58m, enquanto o Hélder fazia a sua pior volta com 53m. O Francisco cruzava a meta 1h32m depois de ter iniciado a sua 3ª volta.

A lubrificação feita para a 3ª volta mostrou-se fundamental e logo percebi que antes de cada volta teria de lubrificar bem o equipamento. Nova lubrificação e montagem do sistema de luzes Sigma Mirage X que iria ser estreado na quarta ronda. Ainda antes da volta nocturna, novo banho no chafariz e jantar. Não tinha muita fome. Na verdade, não tinha nenhuma. Entre fruta, uma perninha de frango e uma embalagem de Powerade para repor no organismo os sais perdidos com a transpiração, decidi fazer um esforço e comer um pouco da massa que a organização cozinhava no refeitório da escola. Foi uma boa decisão. Não que o jantar estivesse especialmente gostoso mas porque o organismo necessitava de hidratos. Não comi nem metade do prato mas fiquei aconchegado para a minha estreia nocturna na prova, o que aconteceu às 00:35.

Embora já algo cansado, gostei da experiência proporcionada pela condução nocturna iluminada pelos Sigma. Fiz toda a volta com o foco de 5w, tendo ligado o de 10w apenas numa ou noutra parte mais técnica. Experimentei os dois focos em simultâneo e quase que parecia dia. A esta hora a temperatura era bastante agradável e o silêncio do mato convidava a passear em vez de competir. Tive de fazer algum esforço para não me deixar levar na ideia de que estaria a passear descontraidamente e que em vez disso tinha um objectivo a alcançar. Embora circulasse sozinho o pó continuava a ser visível, agora vendo-se à frente da iluminação que o foco proporcionava. A experiência e segurança proporcionada por uma boa iluminação foi importante pois transmitiu-me confiança para continuar a descer rápido. Por esta altura, o single-track que antecedia as escadas estava perigoso pois as sucessivas passagens tinham feito muita pedra solta deslizar para os primeiros degraus. Cuidadosamente desci a escadaria e foi assim que percorri a minha volta em 57m. Nesta volta o Artur repetia o tempo de 58m, e o Hélder fazia 51m.

O plano de prova estipulava um descanso contínuo de cerca de 6h para todos os elementos da equipa. Para que tal fosse possível, era necessário que 2 elementos fizessem alternadamente 2 voltas cada, enquanto os outros 2 elementos cumpriam o período de descanso. Assim, coube ao Artur e ao Hélder iniciar a 4ª ronda enquanto eu e o Francisco descansávamos. O Artur que iniciou a 4ª volta à 01:32 passou o “testemunho” novamente ao Hélder após 58m. Este voltaria a devolver a vez ao Artur 51m depois.

A última volta antes do descanso do Artur e do Hélder marcou o início da 5ª ronda, cerca das 03:21. Desta vez o Artur necessitou de 60m para completar a volta e o Hélder 54m. Era agora a vez do merecido descanso do Artur e do Hélder dando a vez ao Francisco e ao Sérgio. Por esta altura tínhamos subido na classificação pois algumas equipas decidiram não andar à noite. Foi o que aconteceu por exemplo à equipa do Forum-TT que com uma indisposição de um dos elementos perdia assim a liderança das nossas 3 equipas intervenientes nas 24h. Aqui a equipa Just4Fun^2 perdeu também 10m pois foi este o tempo que demorou a transição Hélder-Francisco às 5:15.

O Francisco encerrou então a quarta ronda com o tempo de 1:20. Era agora a minha vez. Quando fui descansar tinha posto o despertador mas sou acordado mais cedo pelo Fernando que me diz que o Francisco deve estar quase a sair. Sobressaltado, saí da tenda, fui ao chafariz lavar a cara, equipei-me, pus 2 pingos de óleo na transmissão da bicicleta, meti uma banana à boca e saltei para cima da bicicleta. Por sorte não perdemos tempo pois o Francisco acabara de cruzar a linha da meta.

Pensei que o facto de ter conseguido dormir me iria dar mais frescura física pela manhã, beneficiando também do tempo mais fresco, mas o cansaço era já muito e tinha ainda 2 voltas pela frente. Levei 58m a completar a minha volta na 5ª ronda que viria a ficar completa 1:28 depois com a última volta do Francisco.

Para a sexta ronda, chegámos a ter algumas desistências anunciadas. O Artur embora nunca tenha dito que queria desistir tinha dores nos rins e nas costas que lhe dificultavam a pedalada. Também de dores sofria o Hélder que chegou mesmo a dizer que não ia fazer a sua volta. Veio a mudar de ideias mais tarde quando lhe fizeram ver que era a última volta e que ele poderia fazer um pior tempo mas que para efeitos classificativos aquela volta seria importante. Mentalizado, preparou-se para a 6ª e última ronda que abriu comigo às 9h11m. Por esta altura o Sol já se fazia sentir embora sem causar grande incómodo. O facto
de ser a minha última volta não me trouxe ânimo acrescido. Pelo contrário, foi mesmo o meu pior tempo – 01:02. Seguiu-se o Artur que à minha semelhança fez a sua pior volta com 01:05 e a fechar o Hélder, que mesmo convalescido fazia
50m.

No final todos estavam felizes e ansiosos por ver a classificação final que ditou que a equipa vencedora entre os nossos elementos seria a equipa Just4Fun com uma escassa diferença para a equipa Just4Fun^2. Tudo tinha ficado decidido na última volta. A luta entre o Hélder e o Paulo Leitão ditou o vencedor. O Hélder que partira para a última volta 9 minutos depois do Paulo Leitão, chegou quase a alcançar este mas foi traído pelo material, vendo-se forçado a parar por a corrente ter saltado.

A festa estava a acabar e havia que arrumar todo o material debaixo de um calor intenso. O cansaço, o calor e a falta de vontade em abandonar rapidamente um espaço agradável acompanhado de bom convívio fez com que quase fossemos os últimos a levantar arraiais. Assistimos ainda a verdadeiras lições da arte de bem aproveitar o espaço de um automóvel na arrumação de bagagem, pelo mestre Delgado.

Era hora de almoço e o que queríamos era comer e beber! Tínhamos estado mais de 24h sem nos alimentarmos convenientemente e agora queríamos comida a sério. O restaurante da chegada foi o mesmo da partida, ou não tivéssemos nós sido bem atendidos. Comemos e bebemos enquanto contávamos histórias e falávamos do futuro... e claro, das próximas aventuras que queremos viver ao guiador das nossas máquinas. ;)

Just4Fun, 24º lugar da classe (em 52 equipas), 23 voltas em 24h08m49s.
Just4Fun^2, 25º lugar, 23 voltas em 24h09m33s.

A título de curiosidade, o vencedor da prova a solo fez as mesmas 23 voltas...

Sérgio Duarte


Just4Fun nas 24 Horas BTT 2005 - http://paginadopl.planetaclix.pt/24horas2005.html
Relato e fotos